Por: Alexandre Giesbrecht

Os Panthers são um dos times com menor torcida aqui no Brasil, isso apesar de ficarem em Miami, certamente uma das cidades americanas mais visitadas por brasileiros. Não sei se o motivo é esse, mas meu palpite é que isso se deve à falta de momentos marcantes na história da franquia. É um time onde poucos ídolos jogaram. É um time que tem uma única história memorável nos playoffs, já há longínquos treze anos. É um time que não tem um escudo que marque presença. Se você parar para pensar, todos os times que têm uma legião um pouco maior de torcedores em terras tupiniquins enquadram-se em uma ou mais dessas categorias.

Roberto Luongo saiu brigado da Flórida. Olli Jokinen saiu no dia-limite de trocas sem ter tido o gostinho de vestir a camisa dos Panthers nos playoffs. Jay Bouwmeester está para sair sem o clube ganhar nada com isso. O único bandeirão que o time pode ostentar em seu estádio é o da conquista da Conferência Leste em 1995-96, o único ano em que os Panthers ganharam uma série nos playoffs. Em apenas outros dois anos eles alcançaram a pós-temporada, e a última vez faz nove anos, com o jejum chegando a dez assim que os Canadiens e os Rangers garantirem suas respectivas vagas nos próximos dias, efetivamente esmagando as últimas chances que a torcida do sul da Flórida tem de não ter de assistir ao mata-mata pela televisão. Apesar de já estar na décima temporada jogando na eternamente péssima Divisão Sudeste, ainda falta um título de divisão no currículo do clube.

E assim segue a rotina de uma franquia que parecia estar no rumo certo quando surpreendeu a todos nos playoffs de treze anos atrás. Naquela oportunidade, o quinto colocado Florida eliminou os Bruins em cinco jogos e prosseguiu em desabalada carreira contra os dois primeiros colocados do Leste, respectivamente Flyers (seis jogos) e Penguins (sete jogos), até trombarem com o Avalanche de Joe Sakic, Peter Forsberg e Patrick Roy nas finais, quando foram impiedosamente varridos, com o gol do título saindo na terceira prorrogação do jogo 4, do taco de Uwe Krupp.

Aquele foi o Ano do Rato, uma história com cara de lenda urbana, mas real, que começou logo no primeiro jogo em casa da temporada. Estavam os jogadores no vestiário, quando um rato passou correndo pelo chão. Scott Mellanby não teve dúvidas e deu com seu taco de primeira, fazendo o roedor explodir contra a parede, em um banho de sangue sem paralelos na história do hóquei mundial. Naquela mesma noite Mellanby marcou dois gols, o que foi chamado pela torcida de rat trick (trocadilho de hat trick com rat, ou "rato", em inglês). Não se sabe se o rato foi enterrado com honras militares ou coisa parecida, mas o local de sua morte, próximo a uma vasilha com chicletes, foi marcado com caneta hidrográfica, onde se lia "Descanse em paz, Rato 1", com a inscrição seguida da data (8 de outubro de 1995). Surpreendentemente, o memorial improvisado não virou local de peregrinação.

Mas o gelo do estádio, de certa maneira, virou. Alguns dias depois, um rato de borracha foi visto cruzando os céus da Miami Arena. O número de ratos voadores foi aumentando em prograssão quase geométrica à medida que o time seguia marcando gols e ganhando jogos, a ponto de alcançar a melhor marca da liga em novembro, apenas em seu terceiro ano de funcionamento. "Religiões foram criadas com menos substância que isso", escreveu Leigh Montville, da revista Sports Illustrated.

Apesar de mais de uma centena de ratos de borracha coarem sem brevê a cada partida, a tradição tomou corpo mesmo foi nos playoffs daquele ano, ainda mais porque aquele era o Ano do Rato no zodíaco chinês. Com o time na toada anteriormente descrita, a melhor explicação que muitos encontravam para a grande fase eram os ratos de borracha. Durante a série contra os Penguins, calculou-se que o número de ratos inanimados caídos no gelo tenha chegado a 3 mil.

Quando chegou a vez de o Avalanche enfrentar os Panthers, agora com a Copa Stanley em jogo, a torcida de Denver pareceu ter descoberto a fórmula para brecar a "macumba" adversária e já no jogo 1 atirou ratoeiras no gelo após cada gol dos Avs, que venceram por 3-1. Com a avalanche de gols do Colorado nos impiedosos 8-1 do jogo 2, o moral dos Panthers e de sua torcida estava lá embaixo para o jogo 3, o primeiro em casa naquelas finais. Roy contribuiu para mantê-lo assim, primeiro ao não se recolher dentro do gol durante a chuva de ratos quando dos dois gols sofridos no primeiro período, ao contrário de outros goleiros que enfrentaram tais intempéries. Depois, ao sair para o primeiro intervalo garantindo que mais nenhum rato seria visto por ali, o que ele confirmou ao não sofrer mais gols pelo resto da série — os Avs viraram aquele jogo para 3-2 e ganharam o jogo 4 por 1-0 aos 4:31 da terceira prorrogação.

Na verdade, depois do fim do jogo os ratos voltaram a decolar, mas desta vez para comemorar uma temporada inesperadamente feliz. Sim, nos Estados Unidos o segundo colocado não é chamado de "o primeiro entre os últimos". Havia a esperança de que dias ainda melhores estavam por vir. "Nós temos mais para mostrar", avisava o capitão Brian Skrudland antes de a temporada seguinte começar. "Vamos ter medo de perder. Todo time que já ganhou alguma coisa diz que o ano seguinte foi mais difícil."

Os Panthers não podiam imaginar quão difícil seria. Não só o ano seguinte, mas todos os outros. Em 1996-97 o time ainda chegou aos playoffs como quarto colocado no Leste, mas foi rapidamente despachado pelos Rangers em cinco jogos. Um hiato de duas temporadas separou aquele ano da derradeira aparição do time no mata-mata, em 1999-2000, quando foi varrido pelos Devils. Depois disso, até hoje os Panthers não jogaram mais além do início de abril.

Sete ausências não constituem uma maldição, mas, se levarmos para esse lado, o culpado pode muito bem ser Gary Bettman. Ele já é culpado de tanta coisa; mais uma não vai fazer mal. O fato é que antes de a temporada de 1996-97 começar, a liga decidiu-se por acabar com a festa dos ratos. Decisão curiosa, já que os ratos de borracha apenas atrasavam o jogo, sem prejudicar o gelo, e faziam o esporte ganhar manchetes ao redor dos Estados Unidos, algo supostamente desejável para uma liga que menos de dois anos antes tinha passado por um locaute que fez evaporar metade da temporada de 1994-95. Os ratos e qualquer outro objeto que pudesse atrasar a partida, como os polvos de Detroit, foram proibidos de ser atirados no gelo. A única exceção foram os chapéus em caso de hat trick, algo muito mais raro, ainda mais naqueles tempos em que a armadilha da zona neutra começava a alcançar seu auge.

Sem os ratos, como se viu dois parágrafos atrás, os Panthers definharam e chegaram à situação atual. Nesta temporada, tiveram sua melhor chance de alcançar os playoffs na década. Oito derrotas em um espaço de dez jogos em março fizeram o time despencar na tabela. Com a derrota de terça-feira para os Flyers, a situação ficou desesperadora: faltando duas partidas, é preciso ganhá-las e ainda torcer por não um, mas dois resultados negativos ou dos Rangers ou dos Canadiens. Tudo porque o time da Flórida perde nos dois primeiros critérios de desempate (número de vitórias e confronto direto) para ambos os times.

Não é necessário ter poderes de vidência para perceber que só um milagre de proporções bíblicas salva os Panthers, ainda que sua tabela restante seja mais fácil que a de seus adversários diretos. O técnico Pete DeBoer tenta enganar a si mesmo, mas nas entrelinhas seu desespero é quase visível: "Não sou estatístico nem matemático. Sei que temos de vencer nossos dois jogos. Ainda acho que temos uma chance. Eu disse isso aos jogadores. Se ganharmos nossos dois jogos, acho que vamos nos classificar." Sim, e ganhar na Mega Sena também. Sozinhos. E apostando nos números de 1 a 6.

É, a tal campanha marcante vai ficar (de novo) para o ano que vem. Quem sabe com uma mística que tenha 10% da de 1995-96 o time volte a ter algum sucesso e passe a arrebanhar torcedores além das divisas municipais.

Epílogo: Mellanby aposentou-se em 2007, e o rat trick ainda era o ápice de sua carreira. "Quando participei de um Jogo das Estrelas", contou o jogador na época de sua aposentadoria, "um garoto veio até mim e disse: 'Você é o cara do rato!' Ele nem sabia o meu nome. Ele só sabia que eu matei o rato."

Alexandre Giesbrecht, 33 anos, nunca presenciou uma chuva de ratos em um estádio, mas viu uma chuva de bandeirinhas de plástico.
Arquivo TheSlot.com.br
Patrick Roy (ao centro) enfrenta a chuva de ratos no jogo 3 das finais de 1996.
(08/06/1996)
Arquivo TheSlot.com.br
Funcionários da Miami Arena recolhem os roedores de borracha no gelo.
(08/06/1996)
Arquivo TheSlot.com.br
Tom Barrasso, dos Penguins, esconde-se da chuva.
(24/05/1996)
Alexandre Giesbrecht/reprodução
O ratinho ainda era sinal de bom agouro na prévia da temporada de 1996-97 do jornal Miami Herald, mas suas versões de borracha já estavam proibidas nos estádios.
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Página publicada em 8 de abril de 2009.